Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

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Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Qui Fev 28, 2013 4:22 pm

Cypherpunks: liberdade e o futuro da internet não é um alerta para o futuro, é um alerta para o presente. Neste livro, o fundador do WikiLeaks Julian Assange discute com três proeminentes ativistas do mundo digital – Jacob Appelbaum, desenvolvedor do software de criptografia TOR, Andy Müller-Maguhn, porta-voz do grupo hacker Chaos Computer Club, e Jérémie Zimmermann, ativista da ONG La Quadrature du Net – os perigos de um mundo onde os dados privados dos cidadãos são sistematicamente coletados e requisitados para vigilância governamental, colocando em grave risco as liberdades civis e políticas.

Empresas como Google e Facebook monitoram todas as atividades dos seus usuários – páginas visitadas, padrões de relacionamentos sociais, palavras-chaves de buscas e muito mais – para melhorar a eficácia da publicidade dirigida. O crescimento desse mercado criou bancos de dados muito amplos e precisos que têm sido requisitados regularmente pelos governos, para combater o crime, mas também para controlar a dissidência política. O barateamento das tecnologias de armazenamento de dados também tem estimulado órgãos de inteligência a fazer monitoramento massivo das comunicações dos cidadãos, algumas vezes com expressa autorização do legislativo e do judiciário.

Dessa forma, empresas e governos dos países liberais dispõem hoje de mais dados e informações sobre a vida privada dos seus cidadãos do que o governo da ex-Alemanha Oriental possuía nos anos dourados da Stasi.

Cypherpunks é um alerta para esse processo que já está em curso, embora seja invisível para a maioria das pessoas. Para combatê-lo, os autores deste livro defendem o esclarecimento da população, um maior controle público das instituições de vigilância e estratégias técnicas, baseadas em criptografia, para contornar a espionagem de empresas e governos. Além disso, exigem que em contrapartida à proteção dos dados pessoais seja dada maior visibilidade às atividades governamentais. Trata-se de retomar a máxima hacker que, diante da assimetria entre governos e indivíduos, exige privacidade para os cidadãos e completa transparência para o Estado. O livro busca mostrar esses fenômenos que estão tão encobertos quanto são urgentese sua leitura deve ser o ponto de partida para um programa de ação.
Versão online:
https://we.riseup.net/assets/126142/CLFI.pdf





Última edição por ediv_diVad em Ter Mar 26, 2013 1:40 pm, editado 1 vez(es) (Razão : capas)

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Seg Mar 04, 2013 5:25 pm

Entrevista do Assange à Carta Maior:

ASSANGE DEFENDE AUMENTO MASSIVO DE MEIOS DE COMUNICAÇÃO

Por Marcelo Justo, da Carta Maior

Em entrevista à Carta Maior, concedida na embaixada do Equador no Reino Unido, Julian Assange fala sobre seu novo livro, que está sendo publicado no Brasil, e analisa o atual momento da mídia mundial. “O abuso que grandes corporações midiáticas fazem de seu poder de mercado é um problema. Nos meios de comunicação, a transparência, a responsabilidade informativa e a diversidade são cruciais. Uma das maneiras de lidar com isso é abrir o jogo para que haja um incremento massivo de meios de comunicação no mercado”, defende.

O fundador de Wikileaks, Julian Assange, recebeu a Carta Maior em um escritório especial que a embaixada do Equador no Reino Unido preparou para que ele converse com a imprensa no momento da publicação no Brasil de seu novo livro “Cyberpunks. A Liberdade e o futuro da internet”. Veste uma camiseta da seleção brasileira, com o número sete e seu nome nas costas: a desenvoltura futebolística combina com seu bom bom humor. O cabelo branco e a pele quase translúcida lhe dá um ar de albino insone, mas os mais de seis meses encerrado nos confins da embaixada e o mais que incerto futuro ante à decisão do governo britânico de não conceder-lhe o salvo-conduto que permitiria que viajasse ao Equador, não parecem pesar muito.

É certo que ele em uma aparentemente merecida fama de recluso e que em seu pequeno quarto na embaixada deve fazer o mesmo que fazia a maior parte do tempo em sua vida livre: ficar grudado em seu computador e na internet. É difícil imaginar a vida de Julian Assange sem a tela do monitor e o ciberespaço. Por isso o livro que começa a ser vendido este mês no Brasil, publicado pela editorial Boitempo, contem algo tão inesperado como a camiseta brasileira: uma visão particularmente cética e mesmo negativa sobre o impacto da internet.

Você fala em seu livro da internet como uma possível ameaça para a civilização. Muitos pensam que a internet é uma arma para o progresso humano que produziu, entre outras coisas, Wikileaks. Sua interpretação não é um pouco pessimista?
Assange: Não resta dúvida que a internet deu poder às pessoas que não o tinham ao possibilitar o acesso a todo tipo de informação em nível global. Mas, ao mesmo tempo, há um contrapeso a isso, um poder que usa a internet para acumular informação sobre nós todos e utilizá-la em benefício dos governos e das grandes corporações. Hoje não se sabe qual destas forças vai se impor. Nossas sociedades estão tão intimamente fundidas pela internet que ela se tornou um sistema nervoso de nossa civilização, que atravessa desde as corporações até os governos, desde os casais até os jornalistas e os ativistas. De modo que uma enfermidade que ataque esse sistema nervoso afeta a civilização como um todo.

Neste sistema nervoso há vários aparatos do Estado, principalmente, mas não unicamente, dos Estados Unidos, que operam para controlar todo esse conhecimento que a internet fornece à população. Este é um problema que ocorre simultaneamente com todos nós. E se parece, neste sentido, aos problemas da guerra fria.

Você é muito crítico do Google e do Facebook que muita gente considera como maravilhosas ferramentas para o conhecimento ou as relações sociais. Para essas pessoas, em sua experiência cotidiana, não importa a manipulação que possa ser feita na internet.
Não importa porque esta manipulação da informação está oculta. Creio que nos últimos seis meses isso está mudando. Em parte por causa de Wikileaks e pela repressão que estamos sofrendo, mas também pelo jornalismo e pela investigação que está sendo feita. O Google é excelente para obter conhecimento, mas também está fornecendo conhecimento sobre os usuários. Ele sabe tudo o que você buscou há dois anos. Cada página de internet está registrada, cada visita ao gmail também. Há quem diga que isso não importa porque a única coisa que eles querem é vender anúncios. Esse não é o problema. O problema é que o Google é uma empresa sediada nos Estados Unidos sujeita à influência de grupos poderosos. Google passa informação ao governo de maneira rotineira. Informação que é usada para outros propósitos que não o conhecimento. É algo que nós, no Wikileaks, sofremos em primeira mão e que vem ocorrendo com muita gente.

Mas no que concerne o controle do Estado há usos legítimos da internet para a luta contra a pornografia infantil, o terrorismo, a evasão fiscal…
Indiscutivelmente há usos legítimos e a maior parte do tempo a polícia faz isso adequadamente. Mas nas vezes em que não faz, esses usos podem ser terríveis, aterrorizadores, como está ocorrendo atualmente nos Estados Unidos. É preciso levar em conta que o que chamamos de quatro cavaleiros do apocalipse – a pornografia infantil, o terrorismo, as drogas e a lavagem de dinheiro – são usados para justificar um sistema de vigilância massivo da mesma maneira que usaram armas de destruição em massa para justificar a invasão do Iraque. Não se trata de uma vigilância seletiva de pessoas que estão cometendo um delito. Há uma gravação permanente de todo mundo. Isso é uma ameaça diferente de tudo o que já vivemos antes, algo que nem George Orwell foi capaz de imaginar em “1984”.

No Ocidente, falou-se muito da revolução do Twitter para explicar a primavera árabe. Esse não é um exemplo perfeito do potencial revolucionário da internet?
A primavera árabe se deveu à ação das pessoas e dos ativistas, desde a Irmandade Muçulmana até outros grupos organizados. A internet ajudou o pan-arabismo da rebelião com pessoas de diferentes países aprendendo umas com as outras. Também ajudou a que Wikileaks difundisse os documentos que deram mais ímpeto ao movimento. Mas se você olha para os manuais dos grupos que coordenavam os protestos, na primeira e última página, recomendavam que não se usasse Twitter e Facebook. Para as forças de segurança as mensagens no Twitter e no Facebook são um documento probatório de fácil acesso para prender pessoas.

O que pode se fazer então?
A primeira coisa é ter consciência do problema. Uma vez que tenhamos consciência disso, não nos comunicaremos da mesma maneira por intermédio desses meios. Há uma questão de soberania que os governos da América Latina deveriam levar em conta. As comunicações que vão da América latina para a Europa ou a Ásia passam pelos Estados Unidos. De maneira que os governos deveriam insistir que os governos deveriam insistir para que essas comunicações sejam fortemente criptografadas. Os indivíduos deveriam fazer a mesma coisa. E isso não é fácil.

De que maneira um governo democrático ou um congresso pode contribuir para preservar o segredo das comunicações pela internet?
Para começar, garantindo a neutralidade do serviço. Do mesmo modo que ocorre com a eletricidade, não se pode negar o fornecimento com base em razões políticas. Com a internet não deveria existir essa possibilidade de controlar o serviço. O conhecimento é essencial em uma sociedade. Não há sociedade, não há constituição, não há regulação sem conhecimento. Em segundo lugar, é preciso negar às grandes potências e superpoderes o acesso à informação de outros países. Na Argentina ou no Brasil a penetração do Google e do Facebook é total. Se os parlamentos na América latina conseguirem introduzir uma lei que consagre a criptografia da informação, isso será fundamental.

Temos falado da revolução do Twitter, mas em termos de meios mais tradicionais, como a imprensa escrita ou a televisão, vemos que há um crescente debate mundial sobre seu lugar em nossa sociedade. O questionamento ao poder de grandes corporações midiáticas como o grupo Murdoch ou Berlusconi na Itália e as leis e projetos na Argentina ou Equador para conseguir uma maior diversidade midiática mostram um debate muito intenso a respeito. O que você pensa sobre essas iniciativas?
Nós vimos em nossa própria luta como o grupo Murdoch ou o grupo Bonnier na Suécia distorceram deliberadamente a informação que forneceram sobre nossas atividades porque suas organizações têm um interesse particular no caso. Então temos, por um lado, a censura em nível do Estado e, por outro, o abuso de poder de grupos midiáticos. É um fato que os meios de comunicação usam sua presença para alavancar seus interesses econômicos e políticos. Por exemplo, “The Australian”, que é o principal periódico de Murdoch na Austrália, vem sofrendo perdas há mais de 25 anos. Como isso é possível? Por que ele segue mantendo esse veículo. Porque ele é utilizado como uma arma para atingir o governo para que este ceda em determinadas políticas importantes para o grupo Murdoch.

O presidente Rafael Correa faz uma distinção entre a “liberdade de extorsão” e a “liberdade de expressão”. Eu não colocaria exatamente assim, mas temos visto que o abuso que grandes corporações midiáticas fazem de seu poder de mercado é um problema. Nos meios de comunicação, a transparência, a responsabilidade informativa e a diversidade são cruciais. Uma das maneiras de lidar com isso é abrir o jogo para que haja um incremento massivo de meios de comunicação no mercado.

Tradução: Katarina Peixoto
De: http://www.fazendomedia.com/assange-defende-aumento-massivo-de-meios-de-comunicacao/

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Dom Mar 10, 2013 9:51 pm

Esse livro é recomendadíssimo pra quem quiser entender um pouco melhor sobre wikileaks, jornalismo investigativo, ativismo hacker, etc.

Foi assim que grande parte da imprensa mundial travou contato com a filosofia do WikiLeaks. Tratava-se da aplicação radical da máxima cypherpunk “privacidade para os fracos, transparência para os poderosos” e do princípio fundamental da filosofia hacker: “A informação quer ser livre”.
A batalha travada pelo WikiLeaks é tanto política quanto tecnológica.

E uma frase muito forte no comecinho do primeiro capítulo:

Nenhuma descrição do mundo sobrevive ao primeiro contato com o inimigo.

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por Questao em Dom Mar 10, 2013 11:05 pm

esse livro parece ser bacanudo vou baixar

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Seg Mar 18, 2013 11:55 pm

Recortes bastante interessante do capítulo 7 sobre SOPA, PIPA, ACTA...

Jérémie: É interessante ver o poder dos hackers – “hackers” no sentido original do termo, não no sentido de criminosos. Um hacker é um entusiasta da tecnologia, alguém que gosta de saber como ela funciona, não para se ver preso nisso, e sim para fazer do mundo um lugar melhor. Imagino que, quando vocês tinham cinco ou sete anos, vocês pegavam uma chave de fenda e tentavam abrir os aparelhos para ver o que tinham dentro. Isso é o que é ser um hacker, e os hackers criaram a internet por várias razões – inclusive porque era divertido. Eles a desenvolveram e disponibilizaram essa tecnologia para o mundo todo. Empresas como o Google e o Facebook viram uma oportunidade de criar modelos de negócios com base na coleta de dados pessoais dos usuários. Mas os hackers ainda têm uma forma de poder nas mãos, e meu maior interesse nos dias de hoje é vê-los conquistando cada vez mais poder, até nas arenas políticas. Os Estados Unidos aprovaram a Sopa (Stop Online Piracy Act [Lei de Combate à Pirataria On-line]) e a Pipa (Protect IP Act [Lei de Prevenção a Ameaças On-line à Criatividade Econômica e ao Roubo de Propriedade Intelectual]), uma agressiva legislação de direitos autorais que basicamente dá a Hollywood o poder de restringir o acesso a qualquer empresa on-line e de censurar a internet

Julian: E bloqueios bancários, como os que estão sendo impostos ao WikiLeaks.

Jérémie: Exatamente. O que as instituições bancárias fizeram com o WikiLeaks estava se tornando o método-padrão para combater os malvados piratas do copyright que estão matando Hollywood. E testemunhamos a enorme manifestação da sociedade civil na internet – e não só nos Estados Unidos, não teria dado certo se só os cidadãos norte-americanos se manifestassem contra a Sopa e a Pipa. A manifestação contou com pessoas do mundo todo, e os hackers tiveram um papel fundamental, proporcionando ferramentas para ajudá-las a participar do debate público.

(...)

Jérémie: Acho que nós hackers somos responsáveis pelas ferramentas que construímos e disponibilizamos para o resto do mundo, e pode ser que estejamos testemunhando o início da prática eficiente dessa responsabilidade, quando tais ferramentas são usadas coletivamente. Hoje, na União Europeia, há o debate sobre o Acta (Anti-Counterfeiting Trade Agreement [Acordo Comercial Antifalsificação]), um tratado multinacional que serviu de modelo para a Sopa e para a Pipa3. Acabei de ir ao Parlamento europeu, onde nós, como indivíduos – indivíduos barbudos e fedidos –, demos uma verdadeira aula a um comitê parlamentar. Nós lhes mostramos artigos sobre as regras de conduta do Parlamento europeu que eles aparentemente estavam vendo pela primeira vez e os instruímos sobre como eles deveriam se comportar. Depois foi realizada uma votação e nós ganhamos de 21 votos contra 5, o que empurrou o relator britânico para o canto do ringue. Essa foi uma pequena parte de uma pequena questão processual na tentativa de derrubar o Acta, esse acordo global monstruoso que foi elaborado pelas nossas costas para contornar a própria democracia. Mas nós, como cidadãos, temos o poder de matar esse monstro – com facilidade, com as ferramentas da internet, com as listas de discussão, os wikis e os fóruns de bate-papo, entre outros –, e acho que podemos estar testemunhando o despertar da maturidade da internet, sua entrada na adolescência e a evolução das maneiras pelas quais ela pode ser utilizada pela sociedade em geral para tentar promover mudanças.

(...)

Jérémie: Com a internet, tenho a impressão de que estamos construindo o que chamo de ciclo da internet. Como a internet nunca esquece, podemos passar anos desenvolvendo dossiês, dia após dia, os quais podemos elaborar, analisar. É o que temos feito nos últimos três anos com o Acta. Novamente, o WikiLeaks foi uma inspiração para nós, porque a primeira versão que vazou do Acta foi revelada pela organização em 20086.

Julian: É, nós pegamos o documento.

Jérémie: E nós também revelamos duas versões. Tivemos acesso a cinco versões do texto em três anos e o destrinchamos parágrafo por parágrafo, linha por linha, analisando quem fez o quê, qual indústria está pedindo o quê, e envolvemos consultores jurídicos e especialistas em tecnologia na elaboração de uma versão diferente da narrativa política oficial, que sustenta que “precisamos do Acta para salvar a cultura e proteger as criancinhas de remédios falsificados” e assim por diante. Com isso elaboramos nossa própria linha política usando o ciclo da internet, com uma análise precisa, com trabalho duro, conectando pessoas para participar disso.

Julian: É verdade, e acho que essa visão do Acta convenceu o público.

Jérémie: Pelo menos por enquanto.

Julian: Acho que essa se tornará a visão histórica. Mas, nos bastidores, esse AntiCounterfeiting Trade Agreement, originado da indústria norte-americana dos direitos autorais, na verdade tem sido utilizado em inúmeros tratados bilaterais na tentativa de criar um novo regime internacional determinando o que é ou não legal no que se refere à publicação de informações e quais mecanismos existem para impedir as pessoas de publicar vários tipos de material. Isso acaba cristalizando uma versão mais rigorosa do sistema DMCA norte-americano, o Digital Millennium Copyright Act [Lei dos Direitos Autorais do Milênio Digital], que determina que, se você enviar uma carta a alguém exigindo que algo seja retirado da internet, eles precisam atender à sua solicitação, e existe uma espécie de processo de duas semanas durante o qual eles podem contra-argumentar, mas, por se tratar de um processo dispendioso para qualquer provedor da internet, eles optam por retirar imediatamente as informações e deixam que o autor ou a pessoa que fez o upload das informações arque com os custos da contra-argumentação. As consequências disso têm sido bastante graves nos Estados Unidos, com a retirada de um volume enorme de conteúdo. A cientologia abusou dessa medida e levou à remoção de literalmente milhares de vídeos do YouTube.

Então vamos supor que o Acta seja rejeitado no Parlamento europeu, mesmo que temporariamente. Ainda assim, as principais consequências do Acta parecem estar ocorrendo de qualquer maneira – tivemos o debate democrático, o acordo foi demonizado na esfera pública, nossa narrativa prevaleceu, mas, por trás do pano, estão sendo firmados tratados bilaterais secretos, que levam aos mesmos resultados, simplesmente subvertendo o processo democrático. Por exemplo, o WikiLeaks teve acesso ao novo acordo de livre-comércio entre a União Europeia e a Índia – e o divulgou –, no qual encontramos grandes trechos do Acta Incorporados. Isso tem ocorrido em vários outros acordos e regulamentações. A cabeça do Acta pode ter sido cortada, mas o corpo se dividirá e se imiscuirá em tudo, na ordem internacional sob a forma desses tratados bilaterais. Então, vocês podem até comemorar suas vitórias democráticas em público, na superfície, mas as coisas continuam sendo feitas nos bastidores. Por isso eu não acredito que uma reforma política ou legislativa seja o caminho, mas também não podemos dar folga ao adversário, porque isso só aceleraria o processo. Então é importante ficar de olho neles, de várias maneiras, da mesma forma como estamos de olho no Acta. Isso os desacelera. Mas nem mesmo uma vitória legislativa no parlamento impede essa atividade por baixo dos panos.

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Ter Mar 26, 2013 1:38 pm

A guerra na internet e a privacidade do cidadão
Por Mark Mazzetti e David Sanger em 19/03/2013 na edição 738

Keith Alexander, chefe do recém-criado Cibercomando das Forças Armadas dos EUA, anunciou ao Congresso, na terça-feira, que formou 13 equipes de programadores e de especialistas em computação capazes de realizar uma ofensiva cibernética caso as redes do país sejam atingidas por ataques em larga escala. É a primeira vez que o governo americano admite o desenvolvimento dessas armas.

Alexander falou ao Congresso no mesmo dia em que o chefe do Serviço de Inteligência Nacional, James Clapper, alertou que ataques cibernéticos podem afetar a infraestrutura, a economia e são a mais perigosa ameaça imediata aos EUA – mais grave do que o terrorismo. Alexander foi um dos principais arquitetos da estratégia americana, mas, em geral, sempre se esquivou de questões sobre a capacidade ofensiva dos EUA, embora ele tenha tido uma participação fundamental num dos maiores ataques cibernéticos dos últimos anos, contra as usinas nucleares do Irã.

Clapper disse ao Senado que as agências de espionagem americanas só veem uma “chance remota” de um importante ataque cibernético contra os EUA, mas foi a primeira vez que um funcionário da inteligência não colocou o terrorismo internacional em primeiro lugar no catálogo dos perigos que ameaçam o país.

Mais transparência

Clapper afirmou que é improvável que Rússia e China lancem ataques devastadores no futuro próximo, mas acrescentou que serviços de espionagem estrangeiros já invadiram as redes de computadores das agências do governo americano, de empresas e de companhias privadas. Dois dos ataques mencionados por ele, um em agosto de 2012, contra a companhia petrolífera saudita Aramco, e outro a bancos e bolsas dos EUA, no ano passado, seriam de autoria do Irã.

Alexander falou desses mesmos temas em sua sabatina, afirmando que criou 40 equipes cibernéticas, 13 com uma tarefa ofensiva e 27 encarregadas de treinamento e vigilância. A certa altura, pressionado, ele afirmou que a melhor defesa depende da capacidade de monitorar o tráfego que entra nos EUA por provedores de internet, que podem alertar o governo rapidamente sobre ataques perigosos. Essa vigilância provocará mais debates com os defensores da privacidade, que temem que o governo controle dados enviados por e-mail e por outros canais eletrônicos.

A sabatina sobre esse tipo de ameaças é a única ocasião em que os diretores dos serviços de espionagem expõem ao Congresso as ameaças que atingem os EUA. E Clapper não ocultou o fato de que ele é contra esse ritual anual. Obama prometeu maior transparência ao público, mas Clapper deixou claro que vê poucos benefícios em uma maior abertura de informações.

***

Mark Mazzetti e David Sanger são jornalistas do New York Times
De: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed738_a_guerra_na_internet_e_a_privacidade_do_cidadao

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Re: Cypherpunks - Liberdade e o futuro da internet

Mensagem por ediv_diVad em Qui Abr 18, 2013 9:37 pm

Uma entrevista a ver com o tema:

CONEXÕES PERIGOSAS: A VIGILÂNCIA OCULTA NA GRANDE REDE
Por Coryntho Baldez

As grandes corporações privadas que atuam na internet, como Google e Facebook, não apenas usam o enorme volume de dados que possuem sobre os usuários como fonte de renda. Elas são capazes, hoje, de exercer um refinado controle ético e político sobre os indivíduos, de acordo com Marcos Dantas, professor titular da Escola de Comunicação (ECO) da UFRJ.

“Essas corporações detêm informações cotidianas sobre nossos hábitos e gostos, nível educacional, opção política e religiosa, que o próprio Estado não tem”, alerta Dantas, que ministra as disciplinas “Sistemas e Tecnologias de Comunicação” e “Economia Política da Comunicação”.

Nesta entrevista, o docente afirma ainda que cerca de 70% das comunicações da internet no mundo estão nas mãos de uma única empresa norte-americana: a Level Three. E, segundo ele, quem financia a construção da imensa infraestrutura física necessária para a internet funcionar – “o mundo virtual é mera ideologia” – é o capital financeiro.

Marcos Dantas não acredita que o movimento Cypherpunks, liderado por Julian Assange e que defende a criptografia como meio de preservar os direitos civis das pessoas e a soberania dos povos, seja uma solução para democratizar a internet. Para isso, em sua opinião, será preciso um amplo processo de mobilização política que coloque em xeque o poder das grandes corporações de controlar a rede.

UFRJ Plural – Muitos dos que defendem e ajudam a construir uma internet livre, como Julian Assange, o criador do WikiLeaks, temem que ela se transforme em centro de vigilância dos cidadãos por parte de Estados imperiais. Qual a sua avaliação sobre isso?
Marcos Dantas – Acho que é uma preocupação importante, lúcida e necessária. Mas, sob esse aspecto, também há controle da vida do cidadão por parte das grandes corporações capitalistas. Não é só o Estado que preocupa. Diria até que é menos o Estado que preocupa. Isto porque, se o Estado é democrático, ele também pode ser vigiado pelos cidadãos. As grandes corporações privadas não. As pessoas não sabem o que é feito com os seus dados. E as organizações privadas não somente controlam e fazem dessas informações uma fonte de muito dinheiro, mas também podem exercer um controle ético e político sobre os indivíduos. E, eventualmente, ser fonte de informação para o próprio Estado.

UFRJ Plural – A política de privacidade do Google tem sido alvo de várias críticas. No início deste mês, inclusive, alguns governos da Europa decidiram investigá-la mais a fundo. Por quê?
Marcos Dantas – Eles temem exatamente que corporações como o Google, o Facebook, a Microsoft e a Apple substituam o Estado no controle do cidadão. E passem a deter informações e orientar as práticas das pessoas em função dos interesses delas, e não dos interesses públicos. Essas corporações não são públicas e, hoje, são detentoras de enorme quantidade de informações cotidianas de todos nós, de hábitos e gostos, que o próprio Estado não possui. Elas têm informações até sobre a nossa saúde, o nosso nível educacional, as nossas opções políticas, religiosas, que o Estado não tem. Com isso, passam a ter o poder de orientar a vida dos cidadãos.

UFRJ Plural – Os usuários do Google e das redes de relacionamento, especialmente o Facebook, têm alguma ideia do uso de suas informações privadas para obtenção de lucro, à sua revelia?
Marcos Dantas – Nenhuma. Vou contar um caso pessoal que estou vivendo neste exato momento. Há alguns dias, comprei um smartphone mais moderno. E acabo de descobrir que, se eu quiser fazer uma transferência de um arquivo de números telefônicos que está no meu computador para o aparelho, tenho que jogá-lo numa nuvem controlada pela Microsoft. O atendente da loja afirmou que só é possível fazer essa transferência dessa maneira. Ora, não vou dar as minhas informações privadas e meus contatos para a Microsoft. Fui muito claro. Disse que não faço nada na nuvem. Eu vivo na Terra, e não nas nuvens. Então, não vou transferir meus dados para a Microsoft.

UFRJ Plural – Isso ocorre em qualquer sistema operacional?
Marcos Dantas – Comprei um com windows phone [sistema operacional móvel desenvolvido pela Microsoft], da marca Nokia. Mas com o sistema android acontece o mesmo. Quando alguém compra um smartphone, a primeira coisa que faz é se conectar à internet. Abrir um endereço no Google, se for android, ou então na Microsoft, se for o windows phone. A partir daí, toda transação que se fizer pelo smartphone, seja baixar um dado ou marcar uma agenda, vai passar pelos servidores de uma dessas duas corporações. Por exemplo, se eu marcasse no aparelho a agenda da entrevista que estamos realizando, ela ficaria reigstrada na Microsoft. Ou seja, o meu cotidiano é controlado. Quando as pessoas usam o smartphone para qualquer tipo de transação, não têm a menor consciência de que estão fazendo um trabalho de graça para essas empresas. É a mais-valia mais absoluta que existe no mundo, um traballho gratuito para enriquecer o Bill Gates. E também um repasse de informações poderosas para que essas organizações possam controlar o mundo.

UFRJ Plural – Mas não há o risco de essas informações migrarem para Estados de caráter imperial para que se faça uma vigilância política sobre os cidadãos?
Marcos Dantas – Não tenho nenhuma dúvida de que, na história dos Estados Unidos, as grandes corporações, ao longo de todas as épocas, desde os tempos da famosa Standard Oil, sempre foram instrumentos da política imperial norte-americana. E vice-versa, ou seja, o Estado abria caminho para a expansão de suas grandes empresas. As novas corporações norte-americanas, como o Google e a Microsoft, se já não são, serão instrumentos do poder imperial, numa perfeita simbiose.

UFRJ Plural – Existem na rede iniciativas com potencial libertário, como o WikiLeaks, e também sites e blogueiros que fazem circular informações omitidas na mídia tradicional. Essas iniciativas ainda não são capazes de contrabalançar a influência que o grande capital exerce sobre a internet?
Marcos Dantas – Não, porque se baseiam em princípios, na minha avaliação, equivocados. Elas não colocam a crítica ao capital como fundamento das suas propostas. Se isso não acontecer, essas inciativas permanecerão no plano do idealismo. Obviamente, permitem chamar a atenção e alertar a sociedade de que outro mundo é possível, o que é um aspecto positivo. Mas elas não colocam em questão o cerne do problema, o fato de que quem alimenta essa engrenagem são as relações capitalistas de produção e o capital.

UFRJ Plural – A Primavera Árabe é apontada como exemplo de que a internet também pode estar a serviço de movimentos democráticos de massa, de um novo modo de fazer política. Qual a sua avaliação sobre isso?
Marcos Dantas – Na verdade, superestimaram essas tecnologias. Elas foram usadas como meio de comunicação e, dessa forma, são extremamente eficientes. Em vez de eu pegar o telefone para convocar alguém para uma reunião, posso usar o Twitter ou o Facebook, e fazer isso com muito mais velocidade. Mas as grandes manifestações não são espontâneas. Vou dar um exemplo de uma época em que a internet não existia. Em 1968, mataram um estudante no Rio de Janeiro, o Edson Luís, e uma semana depois 100 mil pessoas estavam nas ruas protestando contra a ditadura militar. Mas esse fato foi apenas o estopim que gerou uma mobilização extraordinária. Antes já havia um processo de debate político acumulado entre jovens universitários, além de partidos políticos clandestinos atuantes. Se, por hipótese, os debates e reuniões que se faziam para discutir ações de resistência tivessem sido feitos em redes de amigos de Facebook, a polícia bateria em cima nos primeiros encontros. Outro exemplo foi quando o Collor estava sofrendo o processo de impeachment e convocou o povo a usar verde e amarelo. Como já havia uma mobilização contra o governo, os brasileiros usaram o preto como forma de protesto, numa manifestação nacional que não precisou de Twitter ou Facebook para acontecer. E na Primavera Árabe um dos líderes das mobilizações no Egito era um executivo do Google. Isso já diz tudo.

UFRJ Plural – Pode-se considerar preocupante o fato de todas as comunicações via internet da América Latina para a Europa ou a Ásia passarem pelos Estados Unidos?
Marcos Dantas – Pior do que isso. Cerca de 70% das comunicações da internet no mundo estão nas mãos de uma única empresa norte-americana, chamada Level Three.

UFRJ Plural – E como isso funciona?
Marcos Dantas – A rigor, para que a internet funcione, é preciso uma imensa estrutura física. O mundo virtual é mera ideologia. São necessários cabos, satélites, torres, servidores espalhados pelo mundo. É uma estrutura caríssima. Fazer um blog é barato, basta dispor de tempo, mas não seria possível sem essa estrutura física, que requer bilhões de dólares de capital. Como ela é muito cara, poucas organizações no mundo podem fazer os investimentos necessários para construí-la e operá-la. Ou o Estado constrói esse tipo de estrutura, e hoje em dia ele não faz mais isso, ou grandes corporações financeiras o fazem. E é exatamente o capital financeiro que está por trás da Level Three, da AT&T, da British Telecom ou da Telefônica. Basicamente, as estruturas de comunicação servem ao capital financeiro nas transferências de fundos ao redor dos mercados mundiais.

UFRJ Plural – Essas redes passam, então, pelo centro de poder do capital financeiro?
Marcos Dantas – Sim, e obviamente pelos centros de poder militar também. Como acontece desde o tempo da telegrafia, essa infraestrutura tem sempre, acima do Equador, uma direção horizontal, ou seja, Estados Unidos, Europa e, cada vez mais, o Japão. E no sul tem uma direção sul-norte, da América do Sul para os Estados Unidos e para a Europa. Então, é claro que, se houver uma série crise internacional, essa configuração pode pesar na balança. Se o Brasil quiser fazer hoje uma comunicação com a África, terá que, necessariamente, passar pela Europa.

UFRJ Plural – Julian Assange afirma que a China está oferecendo a alguns países da África a construção de infraestrutura de backbones de acesso à internet em troca de grandes contratos comerciais. E aponta isso como a possibilidade de se configurar um novo colonialismo no século XXI. Como você avalia essa questão?
Marcos Dantas – Da mesma maneira que, no século XIX, os ingleses construíram ferrovias no Brasil e na Argentina. No Brasil, em São Paulo, para escoar café. E na Argentina, em Buenos Aires, para escoar carne. Na Índia, construíram uma malha ferroviária importante porque precisavam dela para movimentar o seu exército, porque lá a briga era dura. Portanto, os meios de comunicação sempre foram instrumentos fundamentais na geopolítica do poder. E a China está hoje construindo uma alternativa de poder geopolítico aos Estados Unidos, olhando os seus interesses muito bem olhados. Está sabendo por onde pode se expandir, e com muita inteligência.

UFRJ Plural – Por quê?
Marcos Dantas – Porque a África é um continente que foi completamente abandonado pelo Ocidente, depois de ter sido espoliada até dizer chega. É um estorvo para o grande capital o que fazer com aquela região. Quando eles estão se matando em alguma guerra e os humanistas pedem intervenção para evitar um genocídio, qual é a reação do grande capital e de seus governos? Deixa se matarem! É o que acontece a todo instante nos mais variados lugares da África. Só intervieram no Mali porque lá tem urânio, matéria-prima que interessa à França porque 70% da energia do país é nuclear. Então, a China, com a velha estratégia de avançar pelo elo mais fraco, está se expandindo na África a fim de construir cabeças de ponte para um projeto estratégico de longo prazo.

UFRJ Plural – Há um controle subterrâneo, invisível, da grande rede. Mas existem tentativas de oficializar o controle do próprio conteúdo produzido na internet. É o caso de duas legislações que estavam sendo discutidas no Congresso norte-americano, a Sopa (Lei de Combate à Pirataria On-line) e a Pipa (Lei de Prevenção a Ameaças On-line à Criatividade Econômica e ao Roubo da Propriedade Intelectual). Por que essas iniciativas ainda não vingaram?
Marcos Dantas – Em que pese meus amigos ciberativistas acharem que tem a ver com a luta deles, que eu compartilho e considero importante, a razão é outra. O fato é que o grande capital ainda não entrou em acordo sobre como fazer essa regulamentação. E a Sopa evidenciou isso muito bem. De um lado estava Hollywood e, do outro, o Google. Faltam ainda determinados acertos políticos e jurídicos entre as grandes corporações capitalistas para essas legislações vingarem.

UFRJ Plural – E que divergências são essas?
Marcos Dantas – A questão mais importante para o capital hoje não é a terra, mas o direito intelectual. É a patente, a marca, o direito autoral. O capital, hoje, se move em cima de um tipo de valor que não é mercadoria, ou seja, não é algo apropriável e cambiável. Quando o padeiro vende meia dúzia de pães, a cesta dele ficou com menos seis unidades de pães. E o caixa do padeiro aumentou com o dinheiro usado para comprar os pães, fruto do trabalho da pessoa que os adquiriu. Tem-se aí uma troca real, uma troca de equivalentes. Quando a indústria cinematográfica coloca um filme no mercado, não fica com menos filmes na sua estante. Há uma capacidade infinita de reproduzi-lo. Aqui não há troca, mas um licenciamento. Então, é preciso criar regimes para assegurar que aquelas pessoas que vejam o filme não possam replicá-lo a custo zero. Esse regime, em princípio, é o reconhecimento do direito autoral.

UFRJ Plural – E para garanti-lo é necessária uma série de controles?
Marcos Dantas – Sim. Como o reconhecimento do direito autoral, em si, não assegura que as pessoas não “pirateiem”, criam-se estruturas físicas para isso, como o DRM [dispositivo para restringir a difusão e duplicação de cópias de conteúdos digitais]. Outro tipo de controle é o acesso a conteúdo por meio de pagamento, como é o caso de TVs por assinatura ou dos novos sistemas de smartphones. São estruturas criadas para garantir que as pessoas somente tenham acesso a uma música ou a um filme se tiverem um determinado terminal conectado a uma rede paga. Esse tipo de comercialização em que se baseia a rentabilidade de Hollywood e outras indústrias culturais ainda não conseguiu se adequar, por inteiro, ao outro modelo de negócios que vem sendo proposto pelo Google, pela Apple, enfim, pelas empresas que já nasceram no sistema reticular, ou seja, no sistema em rede.

UFRJ Plural – Fale mais sobre esse novo modelo.
Marcos Dantas – A rentabilidade desse modelo de negócios que o Google vem tentando construir está totalmente calcada na informação e na negociação dessa informação. É um modelo que defende a liberação das práticas sociais, ou seja, as pessoas podem fazer o que bem entenderem na rede. Mas, como falamos no início, toda essa movimentação está sendo monitorada, manipulada, tratada por algoritmos poderosos, com o objetivo de vender informação.

UFRJ Plural – E essas legislações que preveem o bloqueio de sites acusados de desrespeitar o direito autoral podem ir contra esse modelo?
Marcos Dantas – Exatamente isso. O Google está propondo uma alternativa. Vou dar um exemplo. Se todo mundo vai ter um smartphone, ele deve estar ligado a uma loja, seja iTunes, Nokia ou Samsung. Da mesma forma, o tocador Blu-ray também deve estar ligado a uma loja. No momento em que todo mundo estiver na rede, aí será possível construir esse pacto.

UFRJ Plural – O movimento Cypherpunks defende a criptografia como forma de preservar os direitos civis das pessoas e também a soberania e a autodeterminação dos povos. Como você avalia essa proposta?
Marcos Dantas – Pode ser uma alternativa interessante, mas, como já ensinava Norbert Wiener, código é uma questão de tempo para quebrar. Primeiro, é algo que exige um investimento técnico, uma organização que trabalhe a criptografia. Os grandes Estados nacionais trabalham com isso, em função de interesses estratégicos. Mas os Estados Unidos, neste momento, demonstram grande preocupação porque dizem que estão sofrendo ataques de ciberinvasores. E dificilmente haverá um país mais criptografado do que os Estados Unidos. Então, não sei se essa é a questão.

UFRJ Plural – E qual é a questão?
Marcos Dantas – Acho que deveríamos passar por um processo político que colocasse em questão o poder das grandes corporações de controlar a grande rede e, a partir daí, controlar a vida dos cidadãos.

(*) Entrevista veiculada na edição de 15 de abril do UFRJ Plural, boletim eletrônico da Coordenadoria de Comunicação da UFRJ.
De: http://www.fazendomedia.com/conexoes-perigosas-a-vigilancia-oculta-na-grande-rede/

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